diegocapdeville

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terça-feira, 9 de novembro de 2010

Vinicius de Moraes - Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.



Rio de Janeiro, 1935

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

reencontro

Subitamente, ao chegar no endereço, percebe que lhe falta o número do apartamento. Mas lembra que tem em um pedaço de papel o número dela. Ele tem vinte e um e muita ansiedade. Atravessa a rua à procura de um teléfono público ou um locutório. Ele pergunta aos chinos da mercearia, que o indicam um lugar dobrando a esquina. Com sua mala no ombro, vira-se e vê a garota sorrir do outro lado da rua. Sua vontade é correr, mas os carros passando na calle o prendem alguns segundos. Segundos que parecem uma eternidade na visão do sorriso. Nessa eternidade ele percebe que estava tão incompleto quanto o endereço. Lembra que a garota que o passou o endereço incompleto o aguardava. Deve ter o visto descer do taxi, ir até os chinos e desceu de seu apartamento de número que permanece desconhecido. Parada ali, do outro lado da calle, sorrindo, era ela o motivo de ele se sentir incompleto, como o endereço. Uma brecha entre os carros. Ele cruza o asfalto, larga sua bagagem, como se fosse sua ansiedade, na calçada. Ela o entrega flores brancas e se entrega aos seus braços. É um longo abraço. Era muita saudade.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

pelo menos hoje

"altamente amável".
ouvi, uma vez, essa expressão referindo-se a mim.
"altamente odiável"
pensei nessa como sendo uma capacidade que tenho.
eu sou memórias e despedidas. sou piadas, atuações e lágrimas.
sou meus amigos.
cada amigo tem um idioma comigo. é o jeito que nos falamos.
isso talvez me faça "altamente amável". ou altamente amante.
amo cada palavra deles para mim. até tchau.
as pessoas estão sempre partindo. parte o coração.
mas, naquele idioma, eles me contam e eu sou fluente.
fluente até no silêncio deles. entendo o adeus.
quem tem que ir, tem que ir. sabe disso e eu sei.
o reencontro sempre chega. com abraço apertado.
meus amigos são onipresentes. um em cada canto.
vida. pelo menos hoje.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

roseira

ele não sabia mais contar historias. ele já soube, mesmo que fossem historias bobas. mas de uns tempos pra cá, não conseguia. por conta da roseira que nasceu em sua máquina de escrever. no início, a roseira só o ajudava a criar historias. a roseira crescia junto com sua criatividade. seus botões floresciam inspiração. mas depois de um tempo, a roseira criou espinhos. e os espinhos sobre as teclas da máquina de escrever machucavam os dedos dele. a roseira tinha nascido no lugar errado. mas agora ele já gostava da roseira, não poderia arriscar tirar a roseira de lá. poderia machucá-la. ele sabia tambem que a tinta da máquina de escrever não fazia bem a roseira. o que ele faz então é colocar um vaso com terra ao lado da máquina. e apenas esperar que as raízes encontrem o caminho para o vaso. ele não sabe mais escrever historias. ele gostava daquela roseira. fim.

terça-feira, 11 de maio de 2010

multiplicidade

monstruoso
monólogo
molesta
minha
mente:

machucaram-se.
montaram
manifestações
maquiavélicas.

mataram,
mas
morreram.

mal
malandro
magnético
magoado.

mutável
musical
mútuo,
místico
mistura.

mandíbulas
mordidas.
manobrar
manicômio
manual.

multidão
moendo-se
muda.

mediato
medicamento
melancólico,
multicolorido.

massa
masculina
marginal.
matrona
matança
metafísica.

moça,
malabarista
macia:
maestria
multifacetada.

menino
manuseia
menina:
moveram-se
maliciosamente,
maravilhosamente.

mesclados,
mitológicos,
molhados.
mar.

máscaras
matinais.
medo:
melhor
mentir.
mostrar
monogamia.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

as sombras e os vazios

sai como quem sai sem rumo, num mundo em que rumo é o supra sumo da sanidade.
sai como que vai, soturno, comprar anestésicos para alimentar uma ansiedade.
o olhar sai perdido nos cantos que não interessam ninguém. o vazio das coisas.
onde cai o relógio analógico e quebram os ponteiros, sai atrasado para sempre.
logo mais na reta rua sem seta, alerta, desperta e acorda em frente ao céu.
a luz que atravessa todas as nuvens o atravessa e cai esburacando tudo.
a lógica que faziam todas as coisas que possuía era mais um surto surdo.
os passos atravessados e os copos esvaziados, o seu corpo vai sem rumo.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

começo de quinta

as partículas de tudo quanto é sujeira pelo ar,
de gente rica gorda fina longe louca gente em
todas as esquinas multi facetadas alertadas
das paranóias e alucinações coletivas.
das batidas de cada balada, da baleada
em buzina, na batida inconcebível.
é tudo muito moralmente correto.
tudo correto moralmente é muito.
de um passo arrastado atras do outro.
numa auto perseguição constante.
olhando pros rostos, nenhum parece com ele.
mapeando cada buraco do trajeto.
trajeto aleatório indo só em frente.
eles não te amam como eu o amo.
as janelas acendem em cores.
cada música e lugar passando.
eles estão loucos.
e eu só me apaixono por loucos.
eu perdi toda a parte que explicava
aquela outra parte que dizia
que eu não gosto mais de você.
eu faltei uma aula e aprendi
a não me resolver.

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