sexta-feira, 23 de maio de 2008

a unb já tem um aroma.
o aroma é fundamental.
por que é esquecido quando
listamos o que
é fundamental?
é a essência do aroma
que é fundamental
ou seu fundamento
é essencial?

calçou o tênis no banco
do carona:
saiu atrasado, mas já era tradição.
resolveu alguma conta no banco
do brasil.
saiu do ida, mas já era sua missão.
resolveu ligar e ir pro chico.
na quadra, alguns amigos no banco
do parquinho.
saiu defumado, mas era a previsão.
resolveram a fome no banco
da padaria.
comprou cigarros, mas era compulsão.
desenhou anônimos inanimados
desanimados.
mas era a sua lição.
ligou para outro número no banco
de dados.
jogou os dados contra o infinito.
mas era diversão.
sorriu no apertado abraço.
mas era solidão.

chegou em casa,
pensou alguma obscenidade
tirou até a essência do tênis,
da meia e do pé.
sentado aparenta sanidade
em mais algum banco
de plástico.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

o zangão e a pedra no meio do rio.

que triste é a substituição injusta.
trocam-se amigos insubstituíveis
por descartáveis alucinógenos que
traíriam a confiança assim que
os fosse possível. ou sempre que.
o zangão e a pedra no meio do rio:
o zangão protege, guarda, sentinela,
a pedra que está ancorada no rio.
a pedra em sua sabedoria, idade,
acolhe o zangão sentinela.
e não haverá outro zangão
que a pedra há de sorrir em segurança.
eu não sou a pedra ou o zangão.
sou o espectador substituído.
me entristece quão sou perecível.
a pedra é eterna em sua fortaleza aquática.
fui rejeitado pelo rio e avisado pelo zangão.
dos inimigos, não esperai hospitalidade,
demonstrai respeito e força.
os amigos não são os que vão,
são os que voltam.
reflito sobre o reflexo do conflito no rio:
é bom ser cuidado. e cuidar de amigos.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

o homem polifônico mata ao som de uma orquestra
de microfonias filarmônicas, jovial e ainda honesta.
a sua pressa impede que perca a peça.
a sua dor impede que seja mais um erro em versos.
por entre as lâminas de barbear escorre sangue.
por entre as testemunhas, nenhuma sobrevive.
o homem polifônico ataca outras vezes.
ainda há de bater em minha porta,
ou me mandar uma mensagem de prelúdio.
mas nada há de temer!
a morte é certa. a dor ainda flerta.
o ser já não quer mais ser: deixa a vaga.
o intenso som de microfonias não pára.
o frenesi de ataques mortíferos tampouco.
o meu maior pesadelo -fora a colisão aérea-
é perder a insanidade e ficar menos louco.
por que a morte é certa. o tempo que não.
nicola tesla perceived the Earth as an acoustic conductor.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

sou alérgico a abelhas e fui picado

"puta que pariu!"
grito na região frontal da faculdade de direito.
por conta de uma dor insuportável
que culminou no leito da minha criatividade
(perto da região frontal do dedo do pé direito)
derramo o café do copo descartável.
mais tarde acenderia o cigarro picado.
mas ainda me preocupara com o ardor da dor.
em seguida me lembro do problema
que me causaria um novo emblema:
sou alergico a abelhas e fui picado.
paralizado, paranóico, pela natureza
pela verdade, pela doença, por enganação,
mas você tem certeza?
o céu de brasília não é bonito e esparrado.
o céu de brasília é irônico.
hipnotizando a todos em brincadeiras.
rindo da desgraça alheia, escarrado
e bonito:
o homem polifônico matou seus amigos:
todos morrendo de rir, todos besteiras.
(abraça a mulher, ela o afasta e o bate:
com cara de descrença e desconfiança)
grita:
-você é uma criança!
-eu preciso de você!
-precisa de infância! ou infanticídio!
(sai de cena, em prantos.)

sexta-feira, 4 de abril de 2008

naquela noite, comportara-se bem
choveu olhares discretos
em todos os desavisados convidados.
mas procurava algum alguem.
já o decepcionara antes e
arrependia-se, mas nem tanto.
precisava de sexo,
era homem, portanto.
com avisadas escapadas
se dirigia para outro canto
chover pó branco sobre
um encantado convidado.
naquela noite não chovia,
mas tinha saudade.
e que noite não tinha?
há meses que não a via.
e o copo recheado de
um líquido castanho
havia de confirmar:
estava estranho
mas os desavisados
convidados, à mesa,
se divertiam, riam.
mas algum alguém
também o via e tão bem
bebia do mesmo
cheiroso líquido.
e a diversão começa,
tarde, duas pessoas
sem pressa.
além dos beijos de praxe,
uns arranhões e tapas,
mas tudo no mais perfeito
encaixe.

sábado, 29 de março de 2008

metade vazio

no dia seguinte você fica meio triste.
mas acho que nem é bem isso...
vamos dizer que você fica meio vazio.
e nada disso
de meio cheio.
o vazio não é uma idéia minha.
é minha idéia de vazio que é
uma idéia minha, creio.

irei pretextar que tudo que
preciso é apenas testar.
testar para fins experimentais.
por que a experimentação
é o caminho.
mas há uma bifurcação.
pode ser o caminho da
felicidade ou da frustração.
mas a metade amputada
continua sempre a ser lembrada.

a esperança da experiência é bela.
e tem todo um ritmo desgastante
um ritmo pedante e desconcentrado.
o meu vazio está longe de ter ritmo
o meu vazio é morto
o meu vazio é seco
o meu vazio é forte
o meu vazio é torto
o meu vazio é sorte
o meu vazio está solto.

segunda-feira, 17 de março de 2008

balé

começa com uma briga: elogios de pontapé, medíocres intrigas, risadas nervosas, sem dentes, olho roxo. quase como fosse um balé! tudo vai muito bem, pelo menos até aí... remete ao seu impulso uma navalha em riste, logo a frente do pulso. punho fechado: a lâmina vai com sede para o ventre. abre um corte de morte sangue. número de órgãos em liberdade, grito engasgado em vergonha. vamos chamar o ato de maternidade. não é um nascimento, é morte mesmo. mas quando a mãe o faz com o filho, é diferente. é a tensão criadora. é como se o criador quisesse tirar o que, anos antes havia dado: a vida. e não que isso me incomode,vida, palavrinha medíocre, pode ficar! jogue de um carro em movimento, sei lá. talvez a vida seja isso, penso: um balé de navalhas.
prefiro não te chamar mais de mãe. prefiro nem te chamar mais. prefiro pegar um navio de passagem, pra qualquer lugar, prefiro, profiro. prometo então só voltar pro enterro. prometo ser um bom menino e só usar drogas daquelas que fazem a família te deserdar. enterro promessa erro. uma máquina de drogar corações e criações. um desejo de deserdar navalhas. um ser que ainda tem que aturar ironias. ironias do balé medíocre.

Quem sou eu