quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

o apodrecer eterno da natureza e a desconstrução fatal da beleza.

janela de madeira e alguém para abri-la, jorrando luz na casa velha.
antigos móveis queimados, ferro enferrujado e cheiro de podre.
o cinza que tudo cobre, o lunático na casa e a luz invasora, refletora.
é o recado que não foi dado e o sussuro que não foi ouvido.
o pote cheio de nada e vários insetos morrendo no chão de rugidos.
o lar desabrigado em si mesmo, perdeu o telhado e a cor.
uma casa que já se encheu de dor e de amor
hoje é cheia de luz, pó e um novo velho morador.
barba longa e branca e um rosto deformado pela vida.
de calça marrom e camisa branca encardida e sapatos.
sentado numa cadeira de balanço rodeada por ratos.
a casa não é grande, não é segura, não é longe.
abriga sonhos e sonhadores, medos e medrosos.
a chuva cai mansa lá fora, e goteira não se esconde.
a casa molhada parece que chora.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

um brinde de chorume

ruídos de maquinaria ao fundo.
ciclo reciclador de tudo que é reciclável.
plástico, alumínio, papel e tudo.
carregados por um agente social
-diríamos indispensável-
negligenciado como lixo.
imagina viver como o bicho
("o bicho, meu deus, era um homem!")
se todos os que hoje catam lixo
simplesmente somem.
viver no lixo, você não iria.
o lixo é luxoso demais para os da sua laia.
viver como um bicho, eu riria.
fugiria do laboratório como um rato cobaia!
aliás, quem foi que disse que a vida
era uma piada sem graça?
esse aí devia saber o tamanho da desgraça.
pilha de lixo como pilha de gente
para o primeiro genocídio do século XXI!
aê, um brinde de champanhe roubado!
puta que pariu, você não ouviu falar de Darfur?
aquela região no Sudão, África? desinformado.
pois é, morre muita gente lá.
e enfim, negligenciados os mortos de Darfur,
negligenciados os catadores de lixo do mundo,
pra onde vai toda a nossa sujeira?

terça-feira, 11 de novembro de 2008

ensaio

vamos então ao que interessa:
a problema da linguagem
e a liguagem do problema.
capital é investido às pessoas
(agora chamadas de organizadoras)
pequena parte para as outras
(agora chamadas criadoras)
mas a criação é meramente ilustrativa.
(melhor, chamada criativa.)
o problema é basear a criação
numa então chamada "cultura de massas"
meramente inspirada em instituições
que possuem o capital inicial
(não a chamada banda).
pois bem, a pirâmide invertida
da cadeia alimentar
(a cadeia, prisão, chamada criação)
entrará, em breve em colapso.
o inevitável declínio.
sem sustentação emocional,
estética e/ou criativa, caos.
mas é óbvio que a obviedade
não é exatamente essa.
(tudo menos o óbvio)
o que chamaremos de mercado,
mercado de mentes, ou idéias,
controla em um mundo de ignorantes,
pessoas fisgadas por um anzol de diamantes.
dias, mentes, dólar, colar, fisgar entre dentes.
(nevermind, nirvana, never forget)
mas não nos desviemos do foco.
o oriente, em sua superpopulação
de superconsumidores superdesorientados
compram e produzem superprodutos,
transformando-se assim em superpotências!
super... agora, seguinte: produção criativa
que não se esgota, não se endivida, é dividida
enfim, consumida.
paga-se ao organizador ou ao criador?
a criação é o maior pagamento do criador?
o criador é o maior pagamento do organizador?
o orgasmo é o maior pagamento do sexo?
eu não estou sendo pago nem estou pagando.
quer dizer, todo mundo paga pra viver.
eu queria viver de luz, e ser uma árvore,
e não pagar nada além de ficar parada....
quero uma parede e um vazio.
mas o vazio do buraco do prego,
então recheado de metal e, finalmente,
sustentando uma pintura qualquer,
mas que foi pensada, imaginada,
idealizada, ativada, criativa e criada.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

o segurança do condomínio passa e o meu cachorro desconfiado late.
um grilo emite um som ritmado e irritante. bebi leite com chocolate.
a confusão cotidiana contudida claustrofóbica corrompedora de mente
um órgão novo: celular telepático radiotivo de aparelhagem aparente.
cibelle em voz suave e ruídos destorcidos pede pra não ser comida.
sua voz suave suavidade sua gravidade sua vez sua voz suave,
o sabonete líquido patético pede pra ser sentido. letras sem vida.
sua presença se liquefez na minha retina cristalina derretida...
como o rugido voraz da turbina do avião que arranha grave.
a visão previsão profusão determina o que escorre pelas paredes e
o rubor escarlate do líquido pulsado pelos vasos oculares ocultados.
a cidade não se lembra de mim, mas eu conheço e fiz cada caminho
eu conheço esse ser nefasto que não me conhece. sem ovos no ninho.
então, tudo que poder ser sentido pode ser um sentido alucinado.
é possível então a cidade ser apenas uma alucinação que eu vivo
ou eu posso ser uma alucinação da cidade, mas que ela ainda não sentiu.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

your aura is purple
so she said...
but then
i saw the purple.
don't know
if its aura.
i've never
-perhaps-
seen aura.
how would
you call
something
you've never
seen?

o olho pesa a luz,
a pálpebra pesa
de sono que pesa
os sonhos em azuis.
cores que não tem nome
e nomes que não tem cor.
fotografias entre alegrias
o padrão infinitamente aleatório
das nuvens que pesam na água.
é a leveza absurda que sinto
quando você me abraça.
é o peso insuportável
-que não minto-
da distância
que resiste.

how would
you call
something
you can't
see
more often?

hoje passei o dia meio acordado meio dormindo e devo admitir que é horrível.
hoje passei o dia meio vazio e incompleto e pensando em como você é incrível.
hoje pensei que é possível estar longe de uma pessoa e ainda no mesmo nível.
hoje eu vou acabar com esse texto que não sei até que ponto ele é suscetível.

sábado, 20 de setembro de 2008

criança perturbada

encontrei um caderno da época de alfabetização... duas redações (além de vários desenhos) me chamaram mais a atenção:

A galinha e o macaco:

O macaco está na janela da casa da galinha.
A galinha corre para a banheira e come as bananas do macaco.
Eles brigam, ficam amigos, se casam e ganham os "Pintomacacos".
29/10/1996

O fantasma era eu:

Numa noite muito escura, apareceu um fantasma.
Ele estava com um cobertor branco e dois buracos nos olhos.
O fantasma olhou para a mamãe e fez:
-Buuuuuu!
Mamãe tremeu e puxou o cobertor.
Ora! o fantasma era eu!
07/11/1996

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

desconversa

desidratando na cidade desidratada:
gota de suor escorrega lenta na testa.
o dia é quente e desfoca o fim da estrada.
aquela cerveja gelada no boteco seco.
movimentar de um lado pro outro da festa,
o ser humano é cinético, estético, patético.
as pessoas conversam sobre o tempo...
o tempo desconversa e atua como formol
na humanidade que é abortada, em prol
de um bem maior: não saber viver.
observo a cultura como a um natimorto,
no formol, num pote de vidro.
e aí não me sinto mais vivo, pode crer.
viver não é respirar e nem observar.
comunicação não é expressão.
e se for a situação:
assassinato em massa de poliglotas!
cortar línguas, abortar a missão.
o consciente coletivo deve estar inconsciente...
e agora, quem vai criar as revoltas?
queimem os livros e façam a mente.
francamente, fé é pra doente e quem não é?
espero enquanto houver esperança
e não vou me pendurar numa cruz.
o mundo está infestado de gente.
mas não dura muito:
o último a morrer, apague a luz.

a democracia é uma coisa linda.
faz de conta que ela existe:
mais de 70% do seu corpo é água.
a água está no poder ainda,
até quando você resiste.
e tudo que você faz ou vê
tem a censura da água.
imagina agora a água
sendo seu mundo, sendo você.
ela controla sua visão
manchando como água suja.
manchas verdes e fluidas...
e controla sua audição:
conchas ressoando o mar
dentro dos seus ouvidos.
e aí um grito submerso: fuja!
mas não adianta.
quando a democracia venceu
o seu plano acabou,
o seu corpo morreu
e sua mente se afogou.


cansei de conversar com o feto no formol.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

night falling in between buildings:
stumbling walking ghosts
by the machinery of streets.
smell of meat rising to meet, in flesh,
noses who trespassed by the ghosts,
scent, eye (shadows) and marks,
may find no glory or flying roses.
feeling like falling in one's sleep
woke suddenly breath taken
dreammed of falling from a skyscraper.
must build a tower, a blue tower.
no ink or pen for no paper.
a tower so the suicidal can jump.
sick fallen angels from above
for the ones with no funerals, flower.
not even in case of love:
no one can jump for no other one.
a blue tower for the suicidal unhappy.
for all of those who have nothing
but theirselves on their own fall.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

e tenho uns amigos que dizem não conseguir escrever....
sorte da liberdade deles, por que eu não consigo parar.
sou um escravo da escrita. sou o apodrecer e o ímpar.
sou
um

ou
tem
mais
gente?
tiro do bolso,
rapidamente,
o celular.
toda vez que recebo mensagem.
como se fosse uma ligação
urgente.
prédios caindo, vertigem, céu,
espaço e chão.
lápis, papel:
entidades cênicas,
anônimas ou não.
buracos no papel,
lápis não tem visão.
corre, corte, corre!
sorte, corre, foge!
ocupações frágeis
e textos ágeis.
só pra esperar
você chegar.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

a garota do vestido branco e o corpo amorfo.

o corpo jogado na areia da praia fica quase amorfo, sob a luz da lua.
a garota do vestido branco quase nem repara, ao passar pelo corpo.
mas é levada pela curiosidade a tentar entender o que é aquilo.
o corpo é reconhecido, mas está tomado de raiva, irreconhecível.
a garota do vestido branco quase se machuca, num diálogo absurdo.
a garota foge do corpo amorfo e da areia. em revolta.
mas como a areia está grudada no seu corpo,
a imagem do corpo não lhe sai da cabeça. e ela volta.
outros tentaram acalmar a amorfa raiva do corpo.
e ele continua jogado a si mesmo, na areia. desanimado.
o reencontro etílico da garota com o corpo é conturbado.
como um jogo monótono e monólogo de cartas, como paciência.
e ela perde a paciência dela enquanto ele perde a sua raiva.
um coringa, quando se trata de quem você realmente gosta.
sincronia anacrônica. foi tomado o veneno dos eventos acidentais.
e tudo que o corpo precisava era de tempo, pra decompor a raiva.
o tempo é o melhor antídoto. e o pior veneno é ter que esperar.
a garota do vestido branco, com o seu tempo, se recupera.
e acaba por reconhecer no corpo, algo que nem ele conhecia.
ou nem conhece. mas o tempo que lhes resta é escasso.
a garota do vestido branco é tudo que ele precisava, ele sabia.
ele não precisava mais de baralho, nem de tempo, nem de espaço.
ao corpo, restava ignorar um erro.
o que não é problema, pra quem já errou.
aos dois, restava serem humanos.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

de tudo que eu não disse pra você
e de tudo que eu não sei o porquê.
conversa de conversível pé no chão.
de todos os quilômetros que viajamos.
tudo que é abraço e toda discussão.
de tudo que eu não disse pra você
algo me corrói mais.
mas eu acho que sei o porquê.
por que eu não disse nem pra mim.
e você já deve saber das coisas,
você já veio e voltou, né? eu só vim.
e você tem medo da imortalidade
fatal que tem a saudade.
mas eu não vejo um bom motivo
para não tentarmos matá-la.
cada vez com doses maiores vivo,
e ela morre.
doses de você. para atacá-la.
e de tudo que eu não disse, sem porquê.
é um desenho rabiscado
e é um sussurro num quarto vazio.
é um livro inacabado
é um portão de desembarque
e um de embarque, vazio.
mentira, não sei o que é.
de tudo que eu disse pra você,
não leve ao pé da letra.
porque de tudo que eu não disse pra você,
é por que ainda vou dizer.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

"é inexplicável como alguém pode gostar de outra pessoa..."
ou foi algo do tipo, que você falou.
mas então vou tentar explicar. pra te confundir:
eu gosto do gosto que seu gosto tem.
e gosto de longe e gosto de perto.
gosto de conversa e gosto deitado.
gosto de um caminho incerto.
gosto da bahia e gosto de mar.
gosto do seu grito animado.
gosto do abraço e gosto de sonhar.
gosto do seu olhar desconfiado.
e gosto do seu olho apertado,
pelo sorriso espetacular.
gosto de esperar você maquear-se.
gosto da vergonha.
e gosto de maconha.
gosto do caminhar rápido.
gosto da cerveja e da cachaça.
gosto do gosto de acarajé.
gosto de andar de mão dada.
gosto de cada um dos cafés.
gosto de não saber...
gosto de te ver.
gosto de você.

domingo, 17 de agosto de 2008

arte é a palavra que eu mais ouço.
devo escutar em uma média de 42,7 vezes por dia.
ou pelo menos leio.
e como continuar gostando tanto?
é como se eu gostasse de rotina.
banal. a palavra ficou banal?
hoje qualquer um é artista.
e, facilmente, diretor de arte.
eu estudo arte. pesquiso.
mas que maior pesquisa se não a d'arte?
a ciência busca soluções e respostas.
a arte fica nessa constante inconstante dúvida.
até por que até onde a arte vai?
do que ela é capaz? do que não é?
acho que não é capaz de lhe dar respostas.
mas resposta é pra cientista.
odeio falar de arte e odeio que me chamem de artista.
e posso parecer arrogante.
mas melhor que parecer artista.
eu sou um estudante, e não vejo quando não serei.
eu estudo arte.
história da arte, crítica, teoria... importante.
mas aí vejo arte em todo e lugar nenhum.
eu não jogo futebol arte.
eu não sou genial e não conheço gênios.
mas o que eu penso pode ser meio assim:

parte da arte
não
parte de mim.
parte do mundo,
e do sim e do
não.
mas parte da arte
parte de mim.
e descobri que assim
parte de todos.
por que cada um tem
sua própria arte.
ou seu conceito,
mas aí é outra história.

a arte se parte.
a arte parte
e deixa saudade.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Enquanto transpirava ácido, impregnava todo o cômodo (durante a noite toda) com psicodelia. Pensou em tentar o vôo. Desistiu. Sentia ser a própria alucinação do Mundo. E sentia ser um sonífero para um deus que já dorme. Então, entoando mantras sabia que deveria sentir o ar puro enforcá-lo. Mas não enquanto ser -nem um ser é insignificante em sua própria existência- mas enquanto pensamento. Porque pensar é como derreter o Mundo. Deve ter pensado nisso enquanto sonhava... Entrando, assim, em guerra com suas idéias. Noutro dia, sentado sobre os tentáculos petrificados que brotam da terra, pode ter quase certeza que está conectado. Não se trata de conforto ou de confronto. Mas de sentir-se acariciado pelo vento. Como se Deus fosse o carinho do vento. Não o "Carinha do Céu". O carinha do céu é o Sol, que agora não o vê, ou sente, mas aceita a sua existência.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

dormente

bom dia, eu acordo cedo e exijo me apresentar,
embora você sempre tenha me conhecido.
eu sou um dia excessivamente nítido.
inexisto em três dimensões mas,
insistentemente ainda sou nomeado.
sou simplista e simplesmente existo.
não sou circular, sou circulável.
sou operante e comandante.
eu fui o atraso e serei adiantado, adiante.
não sou divindade, mas uma espécie de santo.
não tenho carteira de motorista, nem identidade.
sou a certidão de nascimento, sou a certeza infinita.
sou um sacerdote de sacrifícios.
sou tudo que é absurdamente notável, mas discreto.
calculista e dominante. sou a ordem e o progresso.
sou a paz bélica e sou a navalha do malandro.
sou o abrigo da cor e, silenciosamente,
estou dormente e adormecido.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

demagogia egocêntrica.

sou da psicodelia,
sou da subversão,
sou da boêmia,
sou da alucinação,
sou da vida,
sou da loucura.
sou com.
sou de ninguém,
sou da saudade,
sou da praia,
sou alguém,
sou som.
sou inútil,
incapaz,
inerte, incerto,
inominável,
abominável,
indiscreto.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

fotógrafo fotofóbico -parte 2

jornalista e jornaleiro nunca saberão
toda a apoteose hipotética de viver
do fotógrafo,
acabara se revelando em vão.
maneirista e maconheiro,
elitista e grande grileiro,
o fotógrafo:
desobstrui o obturador
que então, queima a ação
-queima congelando, então-
e sente ser e obter a dor.
máquina maquiavélica,
câmara de lentes e entes,
câmera de dentes e sabor.
o fotógrafo: fobia de existir.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

o despovoador.

propriedade privada:
descarga em fluxo de
movimento despovoador
de neurônios, anônimos.
experimentar a cada
fantasma neural, de dor,
de ser, desejar, a tal
ponto de co-existir
com o problema-saudade.
dor é solução de aviso,
solução via-oral,
tristeza veio em riso.
despovoarei meu excesso,
o excesso de presença
no deserto do seu riso.
mesmo sem bilheteria
haveria de ser projetado
em cada buraco, odiado,
expulsado, rejeitado,
operado e operador,
imperador e imperado,
como em cena queimada,
como em corpo sem órgãos,
os buracos inoperantes e
inoperáveis: os olhos.
olhos grandes, de mulher,
pra ser sucesso de qualquer
bilheteria, e você saberia:
quero colocá-la junto
da minha histeria.

sábado, 7 de junho de 2008

fotógrafo fotofóbico -parte 1

liqüidificador liqüifazendo um
másculo músculo pulsante:
feito falecido, sem falácia,
o fotógrafo fotofóbico.
com ação, seu coração é
bebida servida, sem vida
numa festa junina.
por menos do que vemos:
um quinhão, o quentão
misturado ao triturado coração
do torturado, fotografado,
fotógrafo fotofóbico.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

a unb já tem um aroma.
o aroma é fundamental.
por que é esquecido quando
listamos o que
é fundamental?
é a essência do aroma
que é fundamental
ou seu fundamento
é essencial?

calçou o tênis no banco
do carona:
saiu atrasado, mas já era tradição.
resolveu alguma conta no banco
do brasil.
saiu do ida, mas já era sua missão.
resolveu ligar e ir pro chico.
na quadra, alguns amigos no banco
do parquinho.
saiu defumado, mas era a previsão.
resolveram a fome no banco
da padaria.
comprou cigarros, mas era compulsão.
desenhou anônimos inanimados
desanimados.
mas era a sua lição.
ligou para outro número no banco
de dados.
jogou os dados contra o infinito.
mas era diversão.
sorriu no apertado abraço.
mas era solidão.

chegou em casa,
pensou alguma obscenidade
tirou até a essência do tênis,
da meia e do pé.
sentado aparenta sanidade
em mais algum banco
de plástico.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

o zangão e a pedra no meio do rio.

que triste é a substituição injusta.
trocam-se amigos insubstituíveis
por descartáveis alucinógenos que
traíriam a confiança assim que
os fosse possível. ou sempre que.
o zangão e a pedra no meio do rio:
o zangão protege, guarda, sentinela,
a pedra que está ancorada no rio.
a pedra em sua sabedoria, idade,
acolhe o zangão sentinela.
e não haverá outro zangão
que a pedra há de sorrir em segurança.
eu não sou a pedra ou o zangão.
sou o espectador substituído.
me entristece quão sou perecível.
a pedra é eterna em sua fortaleza aquática.
fui rejeitado pelo rio e avisado pelo zangão.
dos inimigos, não esperai hospitalidade,
demonstrai respeito e força.
os amigos não são os que vão,
são os que voltam.
reflito sobre o reflexo do conflito no rio:
é bom ser cuidado. e cuidar de amigos.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

o homem polifônico mata ao som de uma orquestra
de microfonias filarmônicas, jovial e ainda honesta.
a sua pressa impede que perca a peça.
a sua dor impede que seja mais um erro em versos.
por entre as lâminas de barbear escorre sangue.
por entre as testemunhas, nenhuma sobrevive.
o homem polifônico ataca outras vezes.
ainda há de bater em minha porta,
ou me mandar uma mensagem de prelúdio.
mas nada há de temer!
a morte é certa. a dor ainda flerta.
o ser já não quer mais ser: deixa a vaga.
o intenso som de microfonias não pára.
o frenesi de ataques mortíferos tampouco.
o meu maior pesadelo -fora a colisão aérea-
é perder a insanidade e ficar menos louco.
por que a morte é certa. o tempo que não.
nicola tesla perceived the Earth as an acoustic conductor.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

sou alérgico a abelhas e fui picado

"puta que pariu!"
grito na região frontal da faculdade de direito.
por conta de uma dor insuportável
que culminou no leito da minha criatividade
(perto da região frontal do dedo do pé direito)
derramo o café do copo descartável.
mais tarde acenderia o cigarro picado.
mas ainda me preocupara com o ardor da dor.
em seguida me lembro do problema
que me causaria um novo emblema:
sou alergico a abelhas e fui picado.
paralizado, paranóico, pela natureza
pela verdade, pela doença, por enganação,
mas você tem certeza?
o céu de brasília não é bonito e esparrado.
o céu de brasília é irônico.
hipnotizando a todos em brincadeiras.
rindo da desgraça alheia, escarrado
e bonito:
o homem polifônico matou seus amigos:
todos morrendo de rir, todos besteiras.
(abraça a mulher, ela o afasta e o bate:
com cara de descrença e desconfiança)
grita:
-você é uma criança!
-eu preciso de você!
-precisa de infância! ou infanticídio!
(sai de cena, em prantos.)

sexta-feira, 4 de abril de 2008

naquela noite, comportara-se bem
choveu olhares discretos
em todos os desavisados convidados.
mas procurava algum alguem.
já o decepcionara antes e
arrependia-se, mas nem tanto.
precisava de sexo,
era homem, portanto.
com avisadas escapadas
se dirigia para outro canto
chover pó branco sobre
um encantado convidado.
naquela noite não chovia,
mas tinha saudade.
e que noite não tinha?
há meses que não a via.
e o copo recheado de
um líquido castanho
havia de confirmar:
estava estranho
mas os desavisados
convidados, à mesa,
se divertiam, riam.
mas algum alguém
também o via e tão bem
bebia do mesmo
cheiroso líquido.
e a diversão começa,
tarde, duas pessoas
sem pressa.
além dos beijos de praxe,
uns arranhões e tapas,
mas tudo no mais perfeito
encaixe.

sábado, 29 de março de 2008

metade vazio

no dia seguinte você fica meio triste.
mas acho que nem é bem isso...
vamos dizer que você fica meio vazio.
e nada disso
de meio cheio.
o vazio não é uma idéia minha.
é minha idéia de vazio que é
uma idéia minha, creio.

irei pretextar que tudo que
preciso é apenas testar.
testar para fins experimentais.
por que a experimentação
é o caminho.
mas há uma bifurcação.
pode ser o caminho da
felicidade ou da frustração.
mas a metade amputada
continua sempre a ser lembrada.

a esperança da experiência é bela.
e tem todo um ritmo desgastante
um ritmo pedante e desconcentrado.
o meu vazio está longe de ter ritmo
o meu vazio é morto
o meu vazio é seco
o meu vazio é forte
o meu vazio é torto
o meu vazio é sorte
o meu vazio está solto.

segunda-feira, 17 de março de 2008

balé

começa com uma briga: elogios de pontapé, medíocres intrigas, risadas nervosas, sem dentes, olho roxo. quase como fosse um balé! tudo vai muito bem, pelo menos até aí... remete ao seu impulso uma navalha em riste, logo a frente do pulso. punho fechado: a lâmina vai com sede para o ventre. abre um corte de morte sangue. número de órgãos em liberdade, grito engasgado em vergonha. vamos chamar o ato de maternidade. não é um nascimento, é morte mesmo. mas quando a mãe o faz com o filho, é diferente. é a tensão criadora. é como se o criador quisesse tirar o que, anos antes havia dado: a vida. e não que isso me incomode,vida, palavrinha medíocre, pode ficar! jogue de um carro em movimento, sei lá. talvez a vida seja isso, penso: um balé de navalhas.
prefiro não te chamar mais de mãe. prefiro nem te chamar mais. prefiro pegar um navio de passagem, pra qualquer lugar, prefiro, profiro. prometo então só voltar pro enterro. prometo ser um bom menino e só usar drogas daquelas que fazem a família te deserdar. enterro promessa erro. uma máquina de drogar corações e criações. um desejo de deserdar navalhas. um ser que ainda tem que aturar ironias. ironias do balé medíocre.

quarta-feira, 12 de março de 2008

para o medo.

que adianto é escrever quando o espírito não conduz(?).
olhos de vidro bem fechados e muito amedrontados
talvez por chorar sangue humano e ter fobia à luz.
eu quero um contato imediato, não mais esperar:
você e seus cansaços vagos e desejos de sonhar.
as palavras já não me oferecem segurança e
tampouco me expressam, as gritarias aquecem.
nada tão medonho como um par de medrosos,
que amam, discutem, mandam cartas e esquecem.
nada tão entediante como viver no mundo que outrora
pertencia ao romantismo: e querer viver, temendo morrer.
mas meus amigos admiram o poente e lhe fazem poesias.
enquanto eu não vivo a aurora e nem tenho medo de morrer.
a minha salvação eu procuro no final de cada café, na borra.
não o meu destino-que já conheço- mas um esboço de sorriso.
piso num cigarro aceso: conta uns passos, bebe e morre: porra.

quinta-feira, 6 de março de 2008

interminado/interminável

nem toda a tinta do mundo vai te salvar.
você pode pegar suas bibliotecas e partir.
pare com a auto-sabotagem e esconderijos,
perigosos esconderijos da malandragem.
uma redoma de páginas manchadas de sangue
e decoradas com mofo. fungomegalomania.
perdidos em risos e rimas criminosas:
viagem desconhecida de volta da libertinagem.
cadáveres de homens outrora, afáveis.
se cartola mentiu, silenciarei às rosas.
perder o rancor do temor de cair do abismo.
a partir do exato fato que, chato, me empurrou.
você pode se jogar de um prédio em chamas...
e se o prédio não estiver em chamas, ateie.
na sua moda muda, terá teia, fãs e famas.
mas não se engane ou acredite em verdades:
os olhos dos que te amam, não te amam, te olham.
não espere que os olhos sejam mais calorosos.
dos olhos, espere que sejam apenas mais olhos:
e outras rimas de criminosos.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

carnaval

penso, logo hesito.
logo existo e penso
se hesito em pensar.
aflorear em ponta
de ferrão mais cego
que perdido em tiroteio.
vem masturbar meu ego
e então praticaremos
o canibalismo colorido:
comer a outros em festas.
festas coloridas
(frigoríficas)
repletas de pessoas
em coma e comendo-se.
pois já se sabe:
pessoas festejam carne.
comer pessoas é o que há!
canibalismo, carnavalismo,
carnificina:
o importante é a carne
(mental ou dorsal), coma.
o que hesito em pensar
independe de lugar
-enquanto se alugar-
incompreende o suar
acomete o interminável
perecível sangrar.
a mais nova geração:
cresce em cheque-mate
desentendendo a carne
atordoada de drogas
e vive uma felicidade
corrompida.
mas feliz.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Sumiço

não adianta me julgar
eu já sou meu carrasco
sem medo de guilhotinar
minha cabeça tão presa
a um corpo tão inerte.
libertar os seres voadores,
os revolucionários de mesa.
sou minha viúva feliz
jogando ao túmulo flores
e cigarros baratos.
sou o fim do desespero
claro, dos meus atos.
camisa xadrez desabotoada.
sou a cor desbotada
de mais uma despedida.
a saudade não se altera.
sou o soluço.
sou o sumiço.
era.

sábado, 26 de janeiro de 2008

Ode ao Ódio

Penso que odiar não é bem
como a sensação de desgostar.
Tenso mesmo é me explicar
se o ódio é tanto quanto mau
ou se vai muito bem, obrigado.

Odiar me é como respirar,
suspiros seriam como desprezar.
A vida é a falta do que fazer,
Ignorar a dor é como se entreter.
Ironia dever ser amante do ódio:
Todos odeiam odiar, mas esquecem
que ao amar, estão sempre à deriva
da tão odiada atmosfera do ódio.
amar me é como falta de ar...

Falta uma cabeça no parafuso.
Um velhologismo para recriar:
Quanto tempo falta para odeiamar?
Esqueça então tudo que que pareça
ecoar pela cabeça pouco confuso.

Mas você há de se questionar,
ao ler tanto desse rancor:
"Que porra é essa!?"
Melhor é amar o ódio
ou odiar o amor?
Está enganado
por apenas perguntar.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

analgésico

me conta uma coisa,
meu amor,
será que você poderia,
por favor,
dar um tempo pra minha
cabeça e sua dor?

analgésico.
palavra fantástica!
já começa pelos fundos!
paraplégico,
como é não sentir dor?
ou você sente?
melhor: e não sentir amor?
um gêmeo já me disse
que o peso que carregamos
é o amor.
sei que, enquanto caminhamos,
por conta do peso,
sentimos dor.

Caetano pergunta compulsivamente:
pra que rimar amor e dor?

fim.
p.s. começo
aquela que será
a última e sofrida
estrofe pelos fundos.
como um analgésico.
e mastigo.

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