sábado, 20 de setembro de 2008

criança perturbada

encontrei um caderno da época de alfabetização... duas redações (além de vários desenhos) me chamaram mais a atenção:

A galinha e o macaco:

O macaco está na janela da casa da galinha.
A galinha corre para a banheira e come as bananas do macaco.
Eles brigam, ficam amigos, se casam e ganham os "Pintomacacos".
29/10/1996

O fantasma era eu:

Numa noite muito escura, apareceu um fantasma.
Ele estava com um cobertor branco e dois buracos nos olhos.
O fantasma olhou para a mamãe e fez:
-Buuuuuu!
Mamãe tremeu e puxou o cobertor.
Ora! o fantasma era eu!
07/11/1996

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

desconversa

desidratando na cidade desidratada:
gota de suor escorrega lenta na testa.
o dia é quente e desfoca o fim da estrada.
aquela cerveja gelada no boteco seco.
movimentar de um lado pro outro da festa,
o ser humano é cinético, estético, patético.
as pessoas conversam sobre o tempo...
o tempo desconversa e atua como formol
na humanidade que é abortada, em prol
de um bem maior: não saber viver.
observo a cultura como a um natimorto,
no formol, num pote de vidro.
e aí não me sinto mais vivo, pode crer.
viver não é respirar e nem observar.
comunicação não é expressão.
e se for a situação:
assassinato em massa de poliglotas!
cortar línguas, abortar a missão.
o consciente coletivo deve estar inconsciente...
e agora, quem vai criar as revoltas?
queimem os livros e façam a mente.
francamente, fé é pra doente e quem não é?
espero enquanto houver esperança
e não vou me pendurar numa cruz.
o mundo está infestado de gente.
mas não dura muito:
o último a morrer, apague a luz.

a democracia é uma coisa linda.
faz de conta que ela existe:
mais de 70% do seu corpo é água.
a água está no poder ainda,
até quando você resiste.
e tudo que você faz ou vê
tem a censura da água.
imagina agora a água
sendo seu mundo, sendo você.
ela controla sua visão
manchando como água suja.
manchas verdes e fluidas...
e controla sua audição:
conchas ressoando o mar
dentro dos seus ouvidos.
e aí um grito submerso: fuja!
mas não adianta.
quando a democracia venceu
o seu plano acabou,
o seu corpo morreu
e sua mente se afogou.


cansei de conversar com o feto no formol.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

night falling in between buildings:
stumbling walking ghosts
by the machinery of streets.
smell of meat rising to meet, in flesh,
noses who trespassed by the ghosts,
scent, eye (shadows) and marks,
may find no glory or flying roses.
feeling like falling in one's sleep
woke suddenly breath taken
dreammed of falling from a skyscraper.
must build a tower, a blue tower.
no ink or pen for no paper.
a tower so the suicidal can jump.
sick fallen angels from above
for the ones with no funerals, flower.
not even in case of love:
no one can jump for no other one.
a blue tower for the suicidal unhappy.
for all of those who have nothing
but theirselves on their own fall.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

e tenho uns amigos que dizem não conseguir escrever....
sorte da liberdade deles, por que eu não consigo parar.
sou um escravo da escrita. sou o apodrecer e o ímpar.
sou
um

ou
tem
mais
gente?
tiro do bolso,
rapidamente,
o celular.
toda vez que recebo mensagem.
como se fosse uma ligação
urgente.
prédios caindo, vertigem, céu,
espaço e chão.
lápis, papel:
entidades cênicas,
anônimas ou não.
buracos no papel,
lápis não tem visão.
corre, corte, corre!
sorte, corre, foge!
ocupações frágeis
e textos ágeis.
só pra esperar
você chegar.

Quem sou eu