desidratando na cidade desidratada:
gota de suor escorrega lenta na testa.
o dia é quente e desfoca o fim da estrada.
aquela cerveja gelada no boteco seco.
movimentar de um lado pro outro da festa,
o ser humano é cinético, estético, patético.
as pessoas conversam sobre o tempo...
o tempo desconversa e atua como formol
na humanidade que é abortada, em prol
de um bem maior: não saber viver.
observo a cultura como a um natimorto,
no formol, num pote de vidro.
e aí não me sinto mais vivo, pode crer.
viver não é respirar e nem observar.
comunicação não é expressão.
e se for a situação:
assassinato em massa de poliglotas!
cortar línguas, abortar a missão.
o consciente coletivo deve estar inconsciente...
e agora, quem vai criar as revoltas?
queimem os livros e façam a mente.
francamente, fé é pra doente e quem não é?
espero enquanto houver esperança
e não vou me pendurar numa cruz.
o mundo está infestado de gente.
mas não dura muito:
o último a morrer, apague a luz.
a democracia é uma coisa linda.
faz de conta que ela existe:
mais de 70% do seu corpo é água.
a água está no poder ainda,
até quando você resiste.
e tudo que você faz ou vê
tem a censura da água.
imagina agora a água
sendo seu mundo, sendo você.
ela controla sua visão
manchando como água suja.
manchas verdes e fluidas...
e controla sua audição:
conchas ressoando o mar
dentro dos seus ouvidos.
e aí um grito submerso: fuja!
mas não adianta.
quando a democracia venceu
o seu plano acabou,
o seu corpo morreu
e sua mente se afogou.
cansei de conversar com o feto no formol.
escritos:
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
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